por MARCELO MÁXIMO
A rota Cinturão de Ferro é o primeiro Circuito FKT (tempo mais rápido conhecido) de corrida a pé no estado da Paraíba. O trajeto percorre a zona rural de seis cidades paraibanas (Guarabira, Pilõezinhos, Pirpirituba, Borborema, Serraria e Bananeiras), com aproximadamente 72km de extensão e 2700m de desnível positivo acumulado.
A região, conhecida como Brejo Paraibano, possui características de clima mais ameno e terrenos acidentados, com formação de vales e colinas, muitas vezes, cobertas por uma vegetação exuberante. O período de chuvas ocorre entre os meses de março a agosto, enquanto os meses de outubro e novembro, são os meses mais secos. Já as temperaturas mais elevadas se concentram entre os meses de novembro a fevereiro, em torno dos 30°.
Idealizado pelo corredor de montanha Diego Franklin, esse FKT intercala trechos de estradas de terra com trechos de trilhas, passando por vários sítios com plantações de frutas, belas paisagens e pontos turísticos de grande valor histórico. O nome Cinturão de Ferro, segundo Diego, remete a antiga estrada ferroviária, construída na década de 1910, pela empresa inglesa The Great Western of Brazil, para escoar a produção de café e que hoje, encontra-se abandonada.
No mês de fevereiro de 2024, me tornei a primeira pessoa a concluir a rota Cinturão de Ferro e me surpreendi com a beleza e dificuldade do caminho. Diante disso, resolvi criar essa cartilha/relato para, através de minhas percepções, auxiliar àqueles que pretendem se aventurar neste desafio e conhecer um pouco mais da história da Paraíba correndo a pé, ou mesmo, realizando um trekking. Se desejar conhecer um pouco mais do caminho e ver como foi a minha performance durante a trilha, é só acessar o vídeo que postei no link:
Como se inscrever
O primeiro passo para quem deseja correr o FKT é se cadastrar no site www.fastestknowntime.com e ler as regras para ter seu resultado homologado. Basicamente, a pessoa deve possuir um relógio gps que grave o percurso ou gravá-lo pelo celular.
A trilha não é demarcada, desta forma, a pessoa deve baixar o gpx do caminho e seguir a rota, que é disponibilizada no site (na busca, cinturão de ferro). Não existe a possibilidade de a pessoa realizar esse trail “sem suporte”, designação no site para rotas onde é possível realizar o percurso totalmente de forma autônoma, pelo fato de não existir água potável natural para a pessoa se hidratar em riachos por exemplo. Sendo assim, na maioria dos casos, os corredores irão realizar a corrida de forma “autossustentável”, ou seja, a pessoa pode comprar água e alimentos durante o trajeto ou pedir em casa de moradores.
Eu fiz desta forma, mas também, é permitido ir com um carro de apoio e assim, correr mais leve, sem a necessidade de levar tudo nas costas e ter o conforto de conseguir água mais facilmente. Após realizar a corrida, você deve subir no site FKT os dados do seu garmin ou strava, lembre de deixa-los públicos para a conferência. Também terá de preencher alguns dados, realizar um breve relato e postar algumas fotos que tirou durante o trajeto.
Feito isso é só esperar a validação, que geralmente ocorre bem rápido. O objetivo é, além de curtir o caminho, correr mais rápido do que o menor tempo registrado anteriormente. Mais informações do percurso e logística atraveés do perfil no Instagram @vibetrail.
O Cinturão de Ferro

Acima é possível observar o mapa do percurso e o perfil de altimetria do caminho.
Minha Jornada
Me hospedei no Hotel Lucena em Guarabira (83) 3271-1214, que é muito perto do início da rota. A cidade de Guarabira fica localizada a 90 km da capital João Pessoa. No dia seguinte, acordei as quatro da madrugada, me aprontei e às quatro e meia iniciei minha corrida, após passar pela feira livre que já começava a receber os primeiros clientes. Esse início é todo em subida, pelo calçamento que dá acesso ao Memorial Frei Damião, são 3km com 227m de desnível positivo.

Após esse trecho, segui em um sobe e desce de 5,5 km já em estrada de terra e com o clarear do dia. Depois iniciei uma forte descida em uma trilha bastante técnica e fechada, que o pessoal chama de cobrinha, com 2.6 km de extensão e 286m de desnível negativo. Nos próximos 5,3km peguei uma estradinha plana, bem tranquila de correr, passando pela Usina São Francisco, em Pirpirituba.

Após as “flores” vieram os espinhos, literalmente. Entrei em uma trilha bastante fechada, percurso da antiga linha de trem, que agora abandonada foi tomada pelas unhas-de-gato. São cerca de 4km planos, mas devido ao mato fechado se perde muito tempo nesse trecho. O martírio termina nas ruínas da Estação Cacimbas.

Os próximos 4,5km iniciam com algumas subidas e descidas até chegar no segundo perrengue do caminho. Uma trilha de mato alto, difícil navegação e bastante íngreme. Após chegar ao topo da serra, a trilha fica mais aberta, porém, a descida é bem técnica e escorregadia, até chegar a estrada que dá acesso a cachoeira do Roncador. Nesse ponto eu já estava na reserva. Vi um senhor varrendo sua calçada e pedi um pouco de água, e foi pouco mesmo, ele me trouxe um copo e eu fiquei com vergonha de pedir mais. Nesse meio tempo, já havia chupado uma laranja e uma manga que catei pelo caminho, inclusive esse é um dos atrativos desse percurso, várias propriedades com plantações frutíferas.
Ainda com sede, iniciei a grande subida de 2 km e 244m de desnível positivo para logo em seguida descer em direção a cachoeira. Durante a descida, parei no sítio São Pedro e lá, consegui repor os dois litros e meio de água, conforme os flasks e garrafas que eu possuía. Após o sítio, peguei a trilha, atravessei o riacho, cheguei no alto da cachoeira e iniciei a descida. Outro trecho de mata bem fechada, onde perdi bastante tempo.
Na base da cachoeira existe um restaurante e Wi-Fi, lá comprei uma coca, água gelada e comi um salamitos que havia levado. Aproveitei para torcer a meia encharcada, repor a vaselina nos pés, informar minha localização a amigos e familiares e dar uma descansada. Estava com 30 km, pensei que conseguiria realizar o percurso em até 12 horas, mas devido a esse início bem lento, sabia que seria impossível concluir com esse tempo, o objetivo agora era apenas concluir, de preferência antes do anoitecer.

Iniciei a forte subida para sair da cachoeira em direção ao Túnel da Samambaia, com o sol bem forte, esse trecho de 7 km foi penoso e eu intercalava uma corrida leve com uma caminhada. O túnel fica localizado na cidade de Borborema, que é próximo a cidade de Bananeiras. Com aproximadamente 36 km, aqui pode ser um ponto de desistência, caso a pessoa esteja com problemas e queira antecipar sua chegada a Bananeiras, ponto final do FKT.
Segui o caminho por 12km, intercalando estradinhas e trilhas, passando pela barragem de Poço Escuro e pelo Bar da Tarrachinha, onde comprei água e novamente acessei a internet. Segui inicialmente por um trecho plano, onde comecei a ver os primeiros engenhos de cana de açúcar, outra atração turística do caminho e iniciei uma forte subida até chegar ao asfalto. Nesse raro trecho pavimentado, segui por menos de 700 metros, até entrar na estrada de terra que dá acesso ao Engenho Martiniano. Esse engenho é um dos mais belos que eu já visitei, encravado no alto da serra, muito bem preservado.

De lá, até Serraria, foram mais 5km com uma fortíssima subida. Serraria, também é uma linda cidade, com uma igreja imponente e uma bucólica pracinha. O percurso passa direto pela cidade, mas aproveitei para dar uma parada ali e me recompor antes de continuar. Encontrei um supermercado aberto, comprei água e isotônico, me esparramei no coreto da praça esperando a coragem chegar para completar minha jornada.
Era reta final do Cinturão de Ferro, mas, antes de concluir ainda haveriam perrengues. Primeiro uma monstruosidade de subida que me fez pagar todos os meus pecados adquiridos entre o carnaval e o FKT, chegando ao ponto mais alto do percurso, com 610m de altitude. A recompensa era a vista, panorâmica de Serraria, dos açudes, de Solânea, dos verdes vales, da exuberância do Brejo. Após a subida, uma forte descida de terra solta. Durante o caminho encontrei Diego, idealizador da rota, em uma cinquentinha. Veio me dar um apoio moral e certificar que eu continuava vivo.

Aproximadamente com 58 km, levei uma picada de abelha e uma queda, durante a descida. Esfolei minha mão e senti a dor de uma câimbra instantânea. Fiquei ali, deitado por alguns instantes, sentindo a contração do músculo endurecido. Quando consegui me levantar e voltar a dar um trotezinho, sentia dores alternadas na posterior da perna direita, hora por conta da câimbra, hora por conta da picada de abelha.

Passei pela barragem Canafístula 2, já em Bananeiras, pelo Engenho Jenipapo, pela Estação Manitú, até chegar na Bica dos Cocos. Lá encontrei Diego novamente. Agora eu estava muito perto de finalizar o caminho. Ele disse que me esperaria na linha de chegada e de que o caminho agora seria tranquilo (nunca acredite em um corredor de montanha). Passei por uma trilhazinha e subi até o trecho aterrado da linha de trem. Eu conhecia esse caminho, tinha feito parte da TRun no ano anterior, agora era uma reta até o Túnel da Viração. Não, não era! Por pura maldade, ainda havia uma subida (sem necessidade) para terminar o caminho rssss. Desci e subi a ladeira para reencontrar a linha de trem aterrada e, finalmente cruzar o Túnel da Viração. Estava bem feliz e o dia exibia seus últimos raios de sol.
Cheguei na linha de chegada, a Pousada da Estação, na cidade de Bananeiras e fui recepcionado por Diego e Wolgrand, concluindo o primeiro FKT da Paraíba em 13 horas e vinte e dois minutos.









