
A participação de uma criança de 10 anos na Maratona de Aracaju, realizada no último domingo (26/10), acendeu um alerta importante sobre os limites da prática esportiva na infância. O episódio, amplamente repercutido nas redes sociais, gerou debates sobre até onde vai o incentivo saudável e onde começa o risco.
Com a popularização das corridas de rua, tornou-se comum ver famílias inteiras participando de provas. A prática é extremamente benéfica, desde que adequada à faixa etária. Porém, permitir ou incentivar uma criança a percorrer 42 quilômetros ultrapassa qualquer parâmetro de segurança física e emocional.
Segundo Diego Leite de Barros, educador físico, especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o caso da Maratona de Aracaju é um exemplo claro de distorção do papel educativo e saudável do esporte na infância.
“Correr é natural para uma criança desde a primeira infância, mas transformar isso em treinamento sistemático é algo completamente diferente. A corrida, nessa fase, deve ser parte das brincadeiras e do desenvolvimento motor, não um treino com volume e intensidade de adulto”, explica.

O que diz a ciência sobre crianças em provas longas
Do ponto de vista médico, correr uma maratona aos 10 anos é uma prática contraindicada. O corpo infantil ainda está em formação: ossos, tendões e articulações possuem cartilagens de crescimento abertas, o que torna o impacto repetitivo extremamente perigoso.
O esforço excessivo pode causar lesões de estresse, deformidades ósseas, epifisiólises (deslocamento da cartilagem de crescimento) e sobrecarga articular precoce, com risco de artrose e tendinopatias na vida adulta.
Além disso, o sistema metabólico e cardiovascular de uma criança não está pronto para suportar um esforço tão prolongado. Há maior chance de hipoglicemia, desidratação, arritmias e colapsos circulatórios — riscos amplamente documentados na literatura científica.
O que dizem as entidades esportivas
De acordo com a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAT), a idade mínima para participar de provas de rua de até 5 km é de 14 anos. Já as maratonas (42,195 km) são restritas a atletas com mais de 20 anos.
As principais entidades médicas e esportivas, como a American Academy of Pediatrics (AAP) e a World Athletics, reforçam que corridas para menores de 14 anos devem ter caráter lúdico, curta duração e sem foco competitivo. O objetivo é promover prazer e coordenação motora, e não treinar resistência extrema.
Limites físicos e psicológicos precisam ser respeitados
Uma maratona não exige apenas preparo físico: demanda maturidade mental e emocional. Submeter uma criança a tamanha pressão pode gerar frustração, estresse psicológico e até repulsa pelo esporte.
“Expor uma criança a uma maratona descaracteriza totalmente a proposta pedagógica do esporte, que deveria ensinar limites, regras e, principalmente, prazer pelo movimento”, completa Diego.








