Largou a corrida e seguimos acompanhando a transmissão ao vivo na TV dos principais eventos do Brasil e do mundo através da cobertura da elite masculina. O pelotão feminino larga depois, mas vemos apenas lances, momentos e a campeã.

É uma coisa que poucos notam mas ele está ali, sempre presente em nossa sociedade, não importa o segmento. É o machismo, que também fincou os dois pés na corrida de rua. Afinal, por que não filmar elas correndo e noticiar apenas o ganhador masculino? Machismo é uma questão de escolha.

Quando elas são rápidas e ninguém vê

Existem diferenças biológicas entre homens e mulheres as quais tornam eles mais rápidos na corrida. E, logicamente, eles detém o recorde da pessoa mais rápida do mundo. Fato, entre homens e mulheres eles vão ganhar em tempo de prova. Contudo, sempre fica a pergunta: e elas? Onde estão as mulheres mais rápidas? Estão em todos os lugares mas raramente vemos nos holofotes porque a preferência, como quase tudo na sociedade, é por figuras masculinas. 

São eles em sua maioria que estampam os banners de corrida de rua. A preferência não é porque eles são mais rápidos e sim porque o setor de publicidade e propaganda deduziu que eles “soam melhor” nos banners. E o machismo, que afeta tanto os nossos outdoors, propagandas de camisa e flyers chegou também nas divulgações de corrida. Simples assim. 

Há exceções? Claro, mas em uma determinada cidade podemos contar nos dedos quantas são as mulheres que estampam as publicidades relacionadas com corrida de rua.

Se é uma personalidade relevante, uma âncora de jornal que corre, por exemplo, ela estará na capa. Ou um grande atleta que foi ao evento surgirá em banner se ele for olímpico. A Mariazinha que corre rápido demais terá que ganhar muitos títulos para ser estampada em uma matéria.

Uma entre vários, mas sempre militando

O machismo é algo institucionalizado no Brasil, infelizmente. Faz parte da cultura de nossa sociedade pensar no homem como a figura principal e, para equilibrar o cenário, manter as mulheres para fugirem da etiqueta de “machista”. 

São muitos os organizadores do evento que convida um grupo de atletas para conhecer a prova e mantém os masculinos na sua lista de influenciadores preferidos. Para eles pagam translado, alimentação, inscrição gratuita e toda a mídia envolvendo. E contamos nos dedos os privilégios delas para isso.

Recentemente uma grande marca de tênis brasileira convidou um grupo de influenciadores digitais para lançar o novo produto. Dos 11 participantes, 2 eram mulheres. Seria por falta de canais ou de perfis do Instagram com corredoras rápidas? Não. Não questionei a marca porque a imagem fala por si só. 

Elas estão na pista, são às vezes o maior número de inscritos e a prova disso é o sucesso das corridas femininas em todo o Brasil. Quando aconteceu no Recife, a Corrida Feminina McDonald’s deixou muitos eventos com inveja naquele mar de rosa e branco. Elas são consumidoras do produto mas não encontram referência visual neles. Tem evento que nem coloca camiseta baby look.

Precisamos falar sobre o assunto

É cansativo ouvir que somos machistas? Sim, enche o saco às vezes porque é um tema muito conhecido e todos sabemos de sua existência. Entretanto, repetimos as mesmas ações que, na verdade, são uma questão de escolha. 

É uma escolha optar por um homem ao invés de uma mulher no banner de corrida. Ou repetir nos canais de corrida o recorde do maratonista mais rápido do mundo e não fazer diferentes vídeos sobre as mais rápidas.

Muitos lembram quem ganhou a Maratona do Rio na categoria masculino e não lembram o nome da primeira mulher no pódio no evento. Não é culpa nossa, apenas há um foco no cromossomo XY na imprensa. Contudo, podemos mudar isso. Reconhecer o problema é apenas o primeiro passo. 

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